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Dos benefícios das línguas clássicas (Rodrigo Peñaloza, 10-II-2016)

Dos benefícios das línguas clássicas (Rodrigo Peñaloza, 10-II-2016)

A retirada do Latim do currículo escolar de nossas escolas foi um dos maiores erros de nossas reformas educacionais

Os benefícios da cultura clássica em geral e dos idiomas clássicos em particular são imensos. Refiro-me aqui especialmente ao Latim e ao Grego. Quero aqui expor minha visão sobre os benefícios do aprendizado dos idiomas clássicos. Não só em termos linguísticos mas especialmente culturais.

Imagine que o Português é uma cidade e que outros idiomas indo-europeus, como, por exemplo, Francês, Espanhol, Italiano, Inglês, Alemão, Russo, Sueco, Croata etc. São outras cidades, umas mais distantes que as outras, que, para umas, o caminho é mais árduo e difícil. Para outras, um pouco mais fácil, mas todas demandam enorme esforço e tempo para serem atingidas. E sempre a pé. Você escolhe uma cidade e toma anos e muito dinheiro até alcançá-la. Mesmo assim se sente apenas na sua periferia, sem dominá-la de fato, a não ser que se mova para lá e nela viva por um tempo.

Porém, se você escolher duas cidades, a do Latim e a do Grego — ou apenas a do Latim (para começar) -, você adquirirá o direito de viajar para todas essas cidades de avião, quase sem custo de dinheiro, de tempo e de esforço intelectual. O melhor método para aprender o Latim e o Grego é o natural, como nos métodos de Hans Orberg (Lingua Latina per se Illustrata) e o de Balme e Lawall (Athenaze).

Feitas essas viagens iniciais, as viagens para todas as outras cidades (idiomas) se tornam tão simples! Você aprende as declinações dos substantivos e adjetivos, os pronomes e as preposições, chega aos verbos e por fim à sintaxe das orações. O resto é vocabulário. Nada que um mergulho intenso de poucos meses não cubra. Essa é apenas uma das vantagens das línguas clássicas: o aprendizado de outros idiomas.

Outra vantagem é que os exercícios de tradução e análise morfossintática das orações é como a Matemática das Humanidades. É um jogo de Lógica, de xadrez, que você joga a cada oração. Não poucos professores universitários de Física e Matemática (os de antigamente, que sabiam bem o Latim e o Grego, pois eram línguas obrigatórias nas escolas) diziam que bastava um bom aluno de Latim para que o transformassem num bom aluno de Matemática. Tudo porque o Latim e o Grego fortalecem a acuidade intelectual, tanto quanto a Matemática.

Outra vantagem é a compreensão imediata do significado das palavras. Você se torna capaz de conhecer o significado de uma palavra mesmo que jamais a tenha escutado antes. Isso ocorre com muita frequência. Por exemplo, ao ouvir que alguém adquiriu uma doença iatrogênica, saberá ter sido uma doença decorrente do tratamento médico. Você se torna capaz de criar termos para descrever ideias que você não conseguiria nomear apenas com o Português ou qualquer outro idioma moderno.

E você o faz com o aval da regra formal de formação de termos nos idiomas modernos: com radicais greco-latinos. Por exemplo, um amigo que tem o hábito de sair à natureza para admirar pássaros perguntou-me uma vez que termo técnico daria a essa atividade. Imediatemante a sugestão veio: ornitothaumatologia.

Você obtém um entendimento muito mais rico das obras orginais da cultura clássica greco-latina e até dos Evangelhos.

Por exemplo, na Carta de Paulo aos Romanos, onde as traduções modernas trazem expressões tais como “a vingança é de Deus”, você percebe que o termo grego original era o verbo ekdikéw, cujo significado está mais para “cumprimento da justiça” e não para “vingança”. Você compreende que a mudança de significado se deveu ao uso do verbo latino “vindicare” na tradução do Grego para o Latim. Que, do Latim para o Português, mantivemos o termo. As consequências do entendimento dos termos são enormes. Na mente coletiva, que consequências teve a ideia de que Deus é vingativo? Como tudo isso mudaria se, em seu lugar, compreendêssemos a ideia original e correta de que Deus não é vingativo, mas Justo?

Por fim, você adquire uma visão muito ampla e profunda da nossa herança cultural greco-latina. A forma tripartite de governo, as ideias de Indivíduo, de Liberdade, de Democracia, tudo isso adquire novos contornos e significados. Você entende quão diferente é a nossa herança greco-latina da cultura oriental. Entende o porquê da rejeição que a Civilização Ocidental tem pela opressão teocrática de algumas sociedades da Civilização Oriental. Entendendo no que uma não combina com a outra, você se dá conta em que precisamente uma pode se beneficiar da outra.

Por exemplo, a Civilização Oriental tem muito a nos ensinar sobre a moralidade no âmbito civil. Não falo de Ética, mas de Moral. Ética se refere ao que você faz na comunidade. Moral é o que se passa no seu íntimo. Entretanto, é-nos inaceitável trocar a Liberdade que temos de exercer a Individualidade (algo tipicamente ocidental e greco-latino) pela prática de algumas sociedades orientais de sujeição do indivíduo ao império do governo teocrático ou de diluição do indivíduo na coletividade.

Alguém, em um comentário em outra parte, considerou essa ideia uma parvoíce, que as línguas clássicas não eram para isso. Entretanto, é óbvio que não falo neste ponto específico sobre as línguas clássicas per se, mas do seu contexto cultural. O próprio Bruno Snell, um dos maiores helenistas do século XX, em clássico artigo, mostrou como a formação de conceitos científicos na cultura grega se deu pari passu com certos aspectos da evolução da língua grega, começando, por exemplo, pelo uso do artigo definido para substantivar adjetivos e verbos, um processo que não se deu em outras culturas, pelo menos não paralelamente ao desenvolvimento do pano-de-fundo linguístico para o pensamento científico. É disso que falo.

A retirada do Latim do currículo escolar de nossas escolas foi um dos maiores erros de nossas reformas educacionais.

Hoje, clamar pelo retorno do Latim soa a clamor quixotesco. Mas a realidade é que o estado atual de nossa Educação é o que há de mais quixotesco em nossa história. Um surrealismo que nos mantém na berlinda da cultura e mesmo da inteligência, que nos posiciona nas piores posições nos testes educacionais, no aprendizado de línguas e na cultura geral. O retorno do Latim seria um retorno à busca do auto-conhecimento cultural. Somos uma cultura mista, não só uma mistura mas um amálgama, uma mescla das essências.

Entretanto, a parcela greco-latina desse amálgama é muito maior do que pensamos, não só em razão do idioma que falamos, mas em razão da forma de pensar, de prezarmos a Liberdade e a Democracia. Se você reclama da lei que não é cumprida, sabendo que você tem o direito do amparo da Lei, então você é greco-latino. As vertentes africana e indígena de nossa cultura adquiriram seu espaço mas principalmente acentuaram algumas características indo-europeias. Isso nos fez criativos e generosos, talvez as maiores características que temos reconhecidas internacionalmente. A essência, porém, é indo-europeia! É um erro negar essa herança.

Publicado, originalmente em:

https://medium.com/@milesmithrae/dos-benef%C3%ADcios-das-l%C3%ADnguas-cl%C3%A1ssicas-rodrigo-pe%C3%B1aloza-10-ii-2016-47271f6ba62f#.oqmye85jf

Rodrigo Peñaloza
PhD in Economics from UCLA, MSc in Mathematics from IMPA. Professor of Economics at the University of Brasilia. Greatly devoted to Latin and Classical Greek.

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