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NÃO HÁ COMO LER BEM textos antigos em traduções para o português!

Ou inglês, ou espanhol, ou francês, ou italiano…(Em alemão? Teria dado se essa língua tivesse tomado um rumo diferente ao longo de sua história, mas isso é questão para outro post.)

Lê esse verso da Seqüência de Corpus Christi LAUDA SION de Santo Tomás de Aquino:
“noctem lux eliminat”

Sempre que lemos uma frase, uma serie daquilo que o Filósofo chamou de fantasmas aparece em nossa imaginação na mesma ordem em que os vocábulos estão dispostos. Na frase “noctem lux eliminat” temos “noite” e “luz”. Tenta imaginar essas duas realidades, porém em ordens diferentes: imagina a noite. Imaginaste? Agora, imagina a luz. Ok? Agora faça o contrário, imagina a luz e depois a noite. Certo?
A questão é: Santo Tomás QUIS que quando lêssemos esse verso, pensássemos na noite antes de pensarmos na luz. Assim, o verbo “eliminat” é praticamente é desnecessário. Quando traduzimos para o português, o melhor que temos é “A luz elimina a noite”. A luz vem antes, viste?

– Mas e a voz passiva?
– Como diz o nome, é passiva. Se disseres “A noite é eliminada pela luz” estás suavizando o sujeito, que em gramática não se chama mais sujeito e sim agente da passiva, e acabamos dando maior valor à noite do que à luz.

A luz, no verso de Santo Tomás, é Cristo, e a noite é o pecado. O que é mais importante, o pecado ou Cristo? Certamente Cristo! Mas por que devemos ler (e imaginar) o pecado primeiro? Muito simples: o pecado antecede a Cristo tanto historicamente quanto espiritualmente. Assim, não só na eucaristia, que vem eliminar a escuridão do pecado, como também nos demais sacramentos, onde Cristo sempre se faz presente, primeiro tens o pecado, depois vem Cristo e o elimina.

Pronto! Podemos entender isso lendo a frase em português? Sim, claro, pois é uma frase curta e simples, que trata de uma realidade simples como o próprio cristianismo. Mas os textos antigos são sempre assim, e se não puseres os fantasmas na ordem certa, talvez acabes por não entender o texto. Portanto, a posição das palavras diz muito sobre o conteúdo de uma frase, e numa língua sem declinações de substantivos e adjetivos, não temos todos os recursos para que o leitor ou ouvinte crie os fantasmas na ordem que queremos e precisamos.

Em português, é preciso um post gigante para explicar um verso que deveria ser entendido à primeira vista.

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