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Um estudo necessário: O Teatro Grego

Um estudo necessário: O Teatro Grego

Em breve, lançaremos a versão bilíngue, em grego e latim, de três grandes dramas de Ésquilo: “Prometeu Acorrentado”, “Sete contra Tebas” e “Os Persas”. Se você tem vontade de lê-los mas não conhece as línguas clássicas, vale a pena esforçar-se para entrar em contato com essa tradição monumental dos clássicos ocidentais, a qual possibilita um aprendizado único, talvez inigualável.

Otto Maria Carpeaux descreve Ésquilo como o maior representante do teatro grego. Não que menospreze Sófocles e Eurípedes; mas ressalta que as peças esquilianas apresentam inovações que lhe garantem papel privilegiado na cultura ocidental.

De fato, sabemos o quão insubstituíveis são as obras homéricas na cultura helênica; contudo, outro modo de apropriação e interpretação daqueles “dramas do Olimpo” – a exemplo desse sujeito inovador do teatro primitivo – surgiu como mais um brilho literário.

O que de tão especial haveria nesses novos elementos? Para perceber sua importância, reportemo-nos a um caso menos distante. Aposto que todos já conhecem este nome pelo menos do ensino médio escolar: Gil Vicente. Ora, em seu “Auto da Barca do Inferno” – em que seus personagens parecem servir de exemplo daqueles que vão para o inferno ou se salvam depois de conversarem com o barqueiro -, têm-se criaturas individuais que, no entanto, falam por anjos, demônios e classes sociais portuguesas, da nobreza ao povo servil, causando uma forte sensação de realidade e provocando em seus espectadores, ou leitores, a experiência imaginativa do enredo como realidade vivida. Foi assim que o teatro popular de Gil Vicente ganhou seu espaço no imaginário do povo, talvez representando artificialmente seus propósitos políticos como vontades de Deus, o que posteriormente fez com que sua obra fosse proibida pela Igreja.

Ésquilo, séculos antes, valeu-se de expediente similar ao transformar o teatro primitivo na tragédia grega que chega até nós com suas características únicas. A exemplo disso, temos, em uma de suas obras – Sete Contra Tebas -, o forte diálogo, revelador de uma genialidade comum em suas tragédias, entre a própria cidade, representada como feminina ou efeminada, desesperada com a invasão por exércitos unidos no intuito de trucidá-la, e o rei tebano Etéocles, irmão do invasor sedento de poder, cuja descendência em comum era Édipo, conhecido das tragédias de Sófocles.

Tal diálogo é em si algo novo nessa literatura porque é o meio pelo qual se discute o que fazer, ou como solucionar o problema representado pela invasão da cidade e o pânico popular. Ésquilo não só cria personagens humanos e os mitifica, pela ligação divina, numa ação conjunta, mas também acrescenta outros personagens, novos, que não se encontravam antes nos relatos e nos mitos, mas que poderiam ter participado do episódio.

Na história do pensamento grego, há quem considere que esse novo papel, observado no confronto entre personagens, teria sido uma das origens dos diálogos socráticos. Eis, então, a importância, para um estudante, de se imitar o gênero, de se desenvolver a habilidade construtiva do intelecto, à semelhança da maestria com que Ésquilo dramatiza relatos obscuros da memória dos gregos cristalizando-os artisticamente com beleza sem igual. Faz, portanto, parte da apreciação verdadeira e plena dessas obras literárias, o conhecimento do grego e, no caso de nossa edição bilíngue, do latim.

Por Eduardo Rocha
Imagem: Tiziano. Prometeu Acorrentado. 1548-1549. Museo del Prado, Madrid

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