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Agamenon: Anax ou Basileus?

Agamenon: Anax ou Basileus?

Já falamos bastante sobre como era o mundo micênico. Já falamos um pouco de como o mundo mudou com a chegada dos dórios e o florescimento do novo mundo grego também. Não havia mais o palácio do Anax, o rei divino, e a sua estrutura burocrática, nem os basileus, reis locais submetidos a ele. Essa estrutura se dissolve, o Anax deixa de existir e o basileus perde grande parte de sua função e poder. Os grandes reinos submetidos ao Anax se tornam reinos fragmentados regidos pelo basileus e uma assembleia de guerreiros senhores de terras que entre seus pares passam a tomar as decisões políticas.

Em cada cidade, esta classe extremamente bélica precisa selecionar seus membros de maneira bem dura, pois a classe que tiver os melhores senhores e guerreiros garante sua liberdade e sobrevivência. Assim, os senhores guerreiros não contam mais com o apoio financeiro de um Estado bem estruturado. Cada um conta com os próprios recursos – inclusive, para ir à guerra – e com sua rede de homens com os quais tem relação de fidelidade e sangue. Os homens que já não encontram proteção na estrutura estatal passam a se organizar em grupos unidos pelo sangue, fidelidade e culto que, em geral, estavam sob a liderança e proteção de um grande chefe de família. Como vemos, o mundo na época em que a Ilíada é escrita é muito diferente do mundo na época em que os fatos da guerra de Tróia aconteceram. De modo que, ainda que os poemas nasçam de tradições antigas, estas são sempre reinterpretadas a partir de como o mundo era nos tempos de confecção do poema.

É bem possível que o combate entre os gregos da península e os gregos da região de Tróia tenha se dado entre comunidades humanas da mesma origem étnica – indo-europeus vindos do Norte e que apreenderam muito de seu modo de vida com povos originários do Mediterrâneo e do Oriente próximo. Ambos são indo-europeus orientalizados e com uma estrutura palaciana principesca que se estabelecia especialmente em torno do Anax, seus nobres e funcionários, e em torno dos basileus nas periferias. É possível vermos essa estrutura na relação de Agamenon com os outros chefes guerreiros. Apesar de Aquiles ser o guerreiro de maior destaque, o lugar de Agamenon é de grande prestígio tendo, de certa forma, todos submetidos a ele. Outra figura interessante é a de Itaca. A pátria de Odisseu parece ter os traços de uma Basiléia (domínio do basileus) micênica em que o rei local governa junto à um conselho de velhos e ao mesmo tempo se submete às decisões do Anax. Estes e outros elementos são como fósseis da cultura micênica que podemos desenterrar na poesia de Homero e que devem ser herança dos próprios mitos que eram cantados e repetidos desde aquela era.

No entanto, é importante que não esqueçamos que o mundo cantado por Homero já não é o micênico. Ainda que possamos encontrar as ruínas desse velho mundo em seu poema, o que vê resplandecer as luzes do pedagogo dos gregos é um mundo novo e como qualquer homem, aquele ou aqueles que trabalham no texto que atribuímos a Homero pensam como homens de seu próprio tempo e mundo, e enxergam e cantam a guerra dos micênicos e troianos à sua própria maneira. Ainda que seja o primeiro entre os gregos, Agamenon não é, nessa poesia, um rei divino como o Anax. Ele é o primeiro entre iguais que conta não com um Estado do qual todos são dependentes, mas com a cooperação e amizade dos outros senhores. Isso significa que, ainda que o líder dos micênicos muito provavelmente fosse o Anax na guerra real, na poesia ele é uns basileus ou aristocrata de grande importância cujo poder está longe de ser o que fora nesse período. A distribuição dos recursos também não se dá por meio de um funcionarismo ou só pela centralização e distribuição conforme a vontade de algum senhor – isso ainda existe na poesia – e, talvez, seja vestígio desse mundo antigo. Não só na poesia, mas no próprio habito real dos guerreiros como quando outras formas de distribuição aparecem e os recursos conquistados podem ser levados ao centro de uma roda e distribuídos de acordo com os feitos diante de uma assembleia de guerreiros. A própria palavra de decisão não é mais possuída apenas pelo Anax ou alguma figura sagrada, mas passa a ser permitida aos membros dessa assembleia de guerreiros em um conselho de guerra. Todas essas variações são herança dos mais recentes invasores – os dórios – e vão, junto de outros fatores, contribuir para a descentralização do poder nas cidades gregas. Primeiramente, na mão de uma aristocracia guerreira sendo, por isso, o conselho de guerra também usual na paz da cidade. Depois, em figuras burocráticas. Por fim, com o apogeu da democracia (em especial, pela assimilação das heranças dos jônicos com suas cidades formadas sem uma história mais antiga e sem uma classe dominante tão bem estabelecida) essa palavra com poder de decisão passa a todos que recebiam o título de cidadão.

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