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Poesia, religião e poder

Poesia, religião e poder

Com a queda do poder micênico e da estrutura política e religiosa centralizada no Anax (o rei divino que tem o papel de manter a ordem política, social e cósmica) o culto e a cultura correm o risco de se fragmentarem como se fragmenta o poder político. Já não há uma rede de funcionários e sacerdotes tão bem estruturada e forte para manter esse tipo de unidade de modo que outras alternativas para as necessidades espirituais do povo grego ganham maior destaque. O poeta é uma das figuras centrais desse processo.

O rei divino, o Anax, era o ponto de unidade entre as forças originadoras dos fenômenos (deuses e gênios) e o próprio mundo fenomênico. Sua presença, ato e palavra faziam despontar no mundo essas forças que estavam antes nos bastidores do mundo o criando desde seu início, forças criadoras que ao serem manifestas no mundo garantem sua contínua recriação e por isso sua continuidade. A continuidade da existência e da ordem parecia ritualmente atrelada a essa figura real. Quando essa personagem desaparece do horizonte grego, o poeta visionário acaba tendo que assumir em partes esse papel. O poeta visionário, possuído pelos deuses e forças originárias, é capaz de, por meio da palavra cantada (palavra essa que tem uma substância como qualquer coisa no mundo e que parece estar irmanada à própria harmonia e ordem cósmica), fazer aparecer no mundo essas forças originais que em dado momento originaram o mundo ou algo no mundo, e as manifestando, essas forças podem mais uma vez recriar aquilo que em outro tempo fizeram aparecer. Pela poesia cantada pelo poeta os deuses renovam o mundo ou mesmo desencadeiam novas realidades no mundo. A poesia é, portanto, criação no sentido mais forte que mera criação de um artefato da cultura humana e é profecia em sentido mais forte que mera visão do futuro.

É pela poesia que os feitos dos deuses e dos homens podem ser recriados, continuando a existir entre os homens. A palavra, que tem uma substancialidade própria empresta substância a tudo aquilo que iria ser consumido pelo tempo, que seria esquecido. Quando o feito é cantado, ele ganha uma substancialidade que pode ser renovada toda vez que o canto for entoado, e sua vitalidade pode ser renovada toda vez que as forças divinas por trás do feito forem nomeadas. A memória é, portanto não um mero reapresentar do evento para uma subjetividade, é, na verdade, um meio pelo qual as forças que originaram um evento no passado novamente podem fazê-lo, o recriando num corpo feito da substância da palavra cantada, constituído de palavras, e esse evento recriado na palavra cantada pode reproduzir os mesmos efeitos que foram obtidos na primeira vez em que este ocorreu. O poeta, portanto, fica cheio das forças divinas que originaram um certo evento e dá forma a um corpo feito de palavras que podem expressar essas forças no mundo.

Esse caráter plástico de poesia faz do poeta um personagem importante para os aristocratas que buscam a glória. Os feitos logo são consumidos pelo tempo, já que são uma coisa como qualquer outra. E ainda que lembrados, logo serão esquecidos, pois mesmo a memória dos mortais é mortal, e vai desaparecendo com o tempo. Mas o poeta pode fornecer ao feito um corpo de outra matéria, feito das palavras cantadas, cuja ordem é como a ordem do próprio mundo. Esse corpo de palavras se torna então o portador dessas forças que animavam o herói em seu feito, e quando se canta o feito essas forças são evocadas e seus efeitos no mundo novamente sentidos. Esse novo corpo é feito de uma matéria mais durável, que é renovada toda vez que o poema é cantado, de modo que o nome do herói e seus atos alcançam certo tipo de imortalidade. Isso era de extrema importância para as famílias aristocráticas. Os feitos cantados garantiam que a glória desses feitos continuasse presente no mundo, e os descendentes dos heróis, como um tipo de continuidade dele, pudessem agora desfrutar dos efeitos dessa glória em seu lugar. Era pela poesia também que os valores, instituições, costumes, e tudo mais podiam se manter sem serem consumidos pelo tempo. Os poetas faziam todo o mundo humano ser renovado, fazendo surgir no mundo pela poesia os eventos originais por meio dos quais as forças divinas originaram esse mundo.

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