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Palavra, discurso e realidade

Palavra, discurso e realidade

Há discursos na Grécia arcaica com forte poder sobre as decisões humanas. Como se sabe, as palavras nesse período têm certa substancialidade. Elas quase são como coisas, como quaisquer outras coisas no mundo, de modo que podem quando faladas alterar o mundo. E assim como qualquer coisa no mundo, as palavras podem assumir certa ordem e forma se tornando assim o veículo das forças originadoras do mundo, os Deuses e gênios. O próprio fluir dos eventos do mundo se dão como uma ordem em que esses poderes se manifestam, um certo ritmo. Podemos dizer que há uma poesia cósmica dos deuses da qual a poesia dos poetas se deriva. Mas não podemos dizer que essas duas esferas estão em absoluto separadas. A poesia do mundo é um tipo de influxo divino, as Musas.

A poesia da boca do poeta são as Musas que por meio dele invadem o mundo humano de palavras o fazendo tomar uma ordem como as dos eventos animados pelas forças divinas, recriando no mundo das palavras esses eventos, dando corpo da matéria das palavras para essas forças. Essa contração entre a poesia do mundo, as palavras humanas e as forças divinas é o que podemos entender como verdade para os gregos nessa época arcaica. Falar a verdade é falar de tal modo que o discurso seja corpo para as forças originárias. As Musas, por isso podem dizer a verdade e também a falsidade, pois esse fluxo ordenado de eventos do mundo e da fala contém sempre alguma desordem, manifesta, mas também esconde as forças que o origina. Elas também tudo sabem e tudo podem revelar, pois é nelas que as forças criadoras de qualquer evento possível se revelam, de modo que contém nelas as potências de todo evento possível. E o poeta, quando se deixa tomar pelo fluxo dessas forças originárias pode cantar os eventos que essas forças originam, pode dizer a verdade sobre o que aconteceu, pode cantar os feitos dos deuses e dos homens.

O discurso que fala a verdade é por isso, neste momento, não um discurso que se adéqua a realidade externa, mas o discurso cuja origem é a mesma que aquilo de que fala, as forças que originam o evento de que é verdade. Há outros discursos de grande importância, como o dos oráculos por exemplo. O oráculo, como a poesia do poeta-profeta, é verdade, pois aquele que profere o oráculo é tomado pelo fluxo das forças cósmicas que estão em ação produzindo o que há de acontecer. Desse modo, a fala cria um corpo de palavras por meio do qual essas forças que agem de modo macrocósmico possam se manifestar de um modo que tenha o tamanho dos homens. Mas como na poesia das Musas, as palavras, tal como os eventos, não só revelam como escondem, de modo que o oráculo é sempre um enigma a ser desvendado, como a própria vida e o mundo.

Este post tem 2 comentários

  1. Impressionante como os gregos reconheceram o valor e o poder das palavras.

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