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Por que o latim está morto, se nós o utilizamos?

Por que o latim está morto, se nós o utilizamos?

Para responder adequadamente, precisamos primeiro rebater uma afirmação.

Muitas pessoas nos felicitam por estarmos ensinando grego e latim, pois assim estamos revivendo essas línguas. Não é incomum ouvir que estamos promovendo um latim e grego vivos, porque os utilizamos nas aulas, nos cursos e nos colóquios, retirando, assim, o status de “morto” dessas línguas.

No entanto, se dedicamos nossas vidas para o que estamos ensinando, editando obras nessas línguas, passando os dias inseridos nelas, fazemos isto justamente pelo fato de serem mortas.  Por serem mortas é que são tão importantes.

Como funciona uma língua viva

O fato de, por exemplo, a Igreja Católica ter como língua oficial o latim não faz com que ele seja viva, pois a Igreja Católica não usa o latim para que ele permaneça vivo. Usa sim porque é uma língua morta.

O latim, por ser morto, não está sujeito a mudanças, como está uma língua moderna. Se pegarmos as línguas que falamos hoje (estamos em fevereiro de 2019), ela está sujeita a mudanças, pois existem muitos fatores que causam a mudança de uma língua. Quando surge algo novo na sociedade como, por exemplo, um smartphone, precisamos de uma nova palavra. Neste caso, pegamos duas palavras que já existiam, smart e phone e fizemos uma nova palavra. E isso faz com que a língua mude.

E temos palavras que mudam seu sentido. Palavras que, conforme utilizamos, vamos aplicando em outras coisas que não são o que elas realmente significaram na sua origem. Nós temos aqui em português, por exemplo, a palavra bala. Para essa palavra, designamos tanto o projétil quanto o doce ou ainda (pelo menos aqui no Sul) para dizer alguma coisa legal.  A juventude usa a palavra bala no sentido de muito bom, muito bacana.

O latim está morto e não deve ser revivido

Então vemos que a língua está sujeita a mudanças. Mas e o latim? Esperamos – e todos aqueles que se dedicam ao latim também – que ele nunca seja revivido. É importante que ele permaneça morto para que o sentido das palavras não mude. Se nós passarmos a partir de agora a utilizá-lo na rua, nos mercados e nas mais diversas situações, nós vamos fazer com que o latim se transforme em uma língua como qualquer uma das outras línguas, como português, francês, inglês, italiano. O latim, então, vai estar sujeito à mudanças, e será uma nova língua, diferente daquela de Cícero. Isso  vai acontecer. Então é importante que o latim permaneça morto e enterrado nas páginas dos livros.

O latim foi se desenvolvendo desde Plauto até mais ou menos Cícero. Cícero virou o maior referencial do latim, e desde então ele não muda. Não muda e não deve mudar!

A importância de uma língua morta

Porque ele não muda é que a Igreja Católica, por exemplo, utiliza o latim como língua para escrever seus documentos, pois é importante que um documento possa ser lido hoje e daqui a cem anos ou mil anos. Se nós escrevermos os documentos em português, daqui a 50 anos é possível que existam pessoas que não entendam. Daqui a mil anos é possível que ninguém mais entenda, só alguém que estude o português como uma língua morta, como nós estudamos o latim. A diferença é que o português, por ser vivo, vai precisar de estudos segundo seu estado de evolução naquele século em específico, talvez até em uma década específica.

O português muda, o inglês muda, o italiano muda, todas essas línguas mudam. Se eu falo inglês, eu consigo me comunicar com as pessoas que estão vivas agora. Eu não consigo ler as obras de Shakespeare, muito menos de Geoffrey Chaucer. Não é possível se comunicar com o passado. E a mesma coisa serve para as outras línguas. Mesmo com Camões, somente 500 atrás, nós teremos dificuldades, se não tivermos um pouco de estudo dentro da linguagem na qual ele foi escrito. Se não existir uma edição crítica que nos explique o vocabulário, a pontuação e a ortografia, nós teremos dificuldades.

O latim é língua comum há 2000 anos

O latim é um só.  Nós estudamos o latim de Cícero, que é também de Virgílio, – com diferenças de estilo somente – que nos auxilia também para entender Plauto, que é um pouco diferente, até mais simples. Mas durante 2000 anos, o latim de Cícero foi usado e foi a língua comum por 2000 anos, para a ciência, teologia, filosofia, direito, poesia, teatro, enfim, as mais diversas áreas. Artes.

E hoje em dia, o inglês que é a língua internacional que nós usamos para nos comunicarmos, escrevermos e aprendermos sobre todas essas coisas com outras pessoas. Mas isso faz 100 anos, no máximo. E nós não sabemos se o inglês ficará vivo, sendo usado para escrever todas essas coisas, registrar todo esse conhecimento humano por 2000 anos. Provavelmente não. 

Conclusão

Não queiramos, pois, reviver o latim. Devemos estudá-lo não porque é vivo, mas porque realmente é morto. Estando morto e tendo sido a língua comum por tanto tempo, podemos acessar 2000 de tradição ininterrupta e ganhar uma nova cidadania, a cidadania latina. 

O latim está morto. Viva o latim!

 

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