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O latim está morto, ao contrário do que muitos pensam ou querem

O latim está morto, ao contrário do que muitos pensam ou querem

O latim está morto. Sua estrutura fundamental é a mesma há 2300 anos. Apesar disso, essa afirmação é posta em dúvida por um grupo cada vez maior de pessoas, que utilizam os mais diversos argumentos para provar que o latim continua vivo. Neste artigo, vamos procurar abordar algumas das principais dúvidas e refutar algumas das principais alegações a respeito da “vitalidade” do latim. É bom que o latim seja uma língua “morta”, porque essa é a única coisa que o ajudou a sobreviver e – em certo sentido – o mantém “vivo” hoje. Ao “morrer” e deixar de ser a língua nativa de qualquer povo, o latim tornou-se fossilizado e foi libertado da mudança linguística que as línguas vivas sofrem.

Qual a característica principal de uma língua viva?

A principal característica é a mutabilidade. A mudança em uma língua viva acontece rapidamente e a torna quase incompreensível sem um treinamento especial quando olhamos diacronicamente em sua história. Quantos brasileiros são capazes de ler o português antigo? Nenhum. Por quê? Porque a linguagem mudou tanto desde então que é quase irreconhecível. Mesmo alguns dos primeiros escritores portugueses (por exemplo, Luis de Camões) são  incompreensíveis para o leitor médio.

O mesmo não acontece com o latim. Cícero e São Tomas de Aquino estão separados por 12 séculos, no entanto, quem lê um dos autores consegue ler o outro.

Mas existem diferenças na língua nos diversos períodos da história.

Porque ‘morreu’, o latim não sofreu NENHUM dos problemas das línguas vivas. De fato, até mesmo o latim da Idade Média (muitas vezes conhecido por “irregularidades” em comparação com o modelo ciceroniano) é bastante padrão e geralmente segue a gramática e sintaxe do Latim Clássico. Além disso, muitas dessas “irregularidades” já são atestadas no latim antigo (por exemplo, Plauto) ou Latim antigo tardio, então os escritores não romperam com a tradição e modificaram a língua.  Eles estavam escrevendo latim usando os recursos que tinham e com o melhor de sua capacidade e compreensão seguindo os mesmos modelos clássicos que todos os outros.

Este fato torna o latim único (literalmente) entre as línguas do mundo. Nos últimos 2.300 anos, o latim tem literalmente sido o veículo de armazenamento para todas as nossas realizações intelectuais mais significativas. Isso só foi possível porque o latim não era uma língua viva.

Muitas comunidades europeias se comunicam em latim, portanto ele está vivo

O latim está de fato morto, ao contrário do que dizem ou querem muitos latinistas.

A razão pela qual muitas pessoas não querem que o latim se torne uma língua “viva” é porque no minuto em que isso acontecer, começará a mudar e se romperá com essa tradição bimilenar citada anteriormente. Esta é uma batalha que muitos lutam diariamente na internet contra professores que, na busca de uma palavra para expressar um conceito moderno, tentam construir um por conta própria sem conhecimento suficiente em latim. É o que produz bobagens como textare = “escrever uma mensagem” (to text, no inglês) ou nuntiolum mittere = enviar um SMS. Fazer isso não apenas prejudica os alunos do professor (que aprendem o mau latim como resultado), mas também prejudica a fundação da língua e sua tradição histórica.

A tentativa de trazer o latim de volta à vida certamente tem conseqüências extremamente perigosas para a conservação da linguagem e de sua literatura, e – se as pessoas tiverem sucesso – provavelmente levaria ao tipo de cisma que enterraria o latim (no sentido literário tradicional) finalmente e para sempre.

A conservação do latim mencionada aqui consiste em manter vivas as ideias dos autores de qualquer período desde a Antiguidade. Não precisamos aprender latim antigo, medieval ou renascentista. A língua é uma só. Conseguimos manter as ideias vivas sem precisar estudar subdivisões da linguagem, algo que não é possível em nenhuma língua moderna.

Mas então falar sobre coisas modernas em latim é ruim?

Esse não é o caso em si. A referência aqui é cultural. O latim é o veículo tradicional para o intelectualismo da Europa Ocidental e, em particular, do pensamento humanista. Falar de McDonald’s, Coca-Cola, SMS e internet cria um contraste: (1) de um lado, o objetivo do latim, que é acessar o escopo legítimo da educação clássica e tentar se tornar uma pessoa melhor contra (2) a tendência moderna de abordar tópicos fúteis e superficiais.

É ruim o uso do latim falado na vida cotidiana? Qual é o objetivo da língua, então?

Obviamente deve haver um método falado de instrução latina e até mesmo seu uso como uma linguagem cotidiana de pensamento. Porém o latim não é um fim em si mesmo. Nós não praticamos o latim para sermos bons em latim. Isso é tão inútil quanto correr em círculos para ficar bom em correr em círculos.

Ficamos bons no latim para que possamos (1) ter um melhor acesso aos pensamentos, idéias e perspectivas que nos foram deixadas ao longo da história nessa língua, e esperamos que (2) nos tornemos participantes dessa tradição intelectual e da busca por Verdade. 

O latim é o meio, não o fim. É apenas uma ferramenta, embora intricada e bonita, mas no final de contas inútil sem a história literária que preserva.

Trazer o latim de volta a vida é realmente uma coisa tão ruim? Afinal, é uma linguagem bonita e expressiva. Línguas vivas também podem ser belas e as pessoas reavivaram línguas mortas antes (o hebraico, por exemplo).

Aqui existe a presunção que a linguagem permaneceria consistentemente a mesma que a clássica. Não vai. De fato, irá divergir muito rapidamente. O perigo que surge ao trazer literalmente o latim de volta à vida é que ele provavelmente sofreria mudanças semânticas e léxicas significativas quase que imediatamente depois disso. A comparação com a língua hebraica só reforça essa ideia. Você pode ser completamente fluente em hebraico bíblico e não ser capaz de encontrar uma loja ou pedir um cachorro-quente em Tel Aviv amanhã, apesar de falar a “mesma” língua – na verdade, aquela da qual a versão moderna foi derivada há menos de trezentos anos. Se o mesmo acontecesse com o latim, o valor da língua seria perdido, pois a conexão com a tradição (em termos de sua capacidade de participar e entender) seria cortada.

O latim era uma língua viva antes, durante a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento e o Iluminismo. E de fato mudou ao longo de todas essas eras, especialmente com a adição de palavras de outras línguas (por exemplo, hebraico), ou apenas invenções completas

Isso não é verdade. O latim era uma língua viva na antiguidade, após o que se tornou fossilizado. A principal diferença entre uma língua fossilizada e uma viva é que numa linguagem viva os meios e regras fundamentais para a expressão sintática e lexical continuam mudando, enquanto numa linguagem fossilizada eles permanecem essencialmente os mesmos, mesmo que novos itens lexicais sejam adicionados (mas em de acordo com as regras da própria língua). Em nenhum momento da Idade Média, do Renascimento ou do Iluminismo a natureza fundamental do latim mudou. Os padrões para o que foi considerado “bom latim” flexionaram consideravelmente (na Idade Média devido a recursos limitados em termos de manuscritos e gramáticas, no Renascimento por causa do ressurgimento desses recursos, e no Iluminismo por causa do compromisso ciceroniano), mas as bases gramaticais e lexicais para a linguagem eram constantes. Qualquer historiador do latim notará isso.

Temos que ser claros sobre definições. O latim simplesmente não era uma língua viva durante o período medieval e, posteriormente, porque as pessoas não começaram a aprender latim como crianças. Eles aprendiam nas escolas com os professores. Se se tornasse uma língua viva novamente, se as pessoas aprendessem como crianças e – crucialmente – tivessem contato mínimo com textos latinos, a língua começaria a mudar. 

E os novos termos criados pela Igreja? O Lexicon Recentis Latinitatis é um dicionário Novo Latino publicado pela Fundação Latinitas, sediada no Vaticano. O livro é uma tentativa de atualizar a língua latina com uma definição de neologismos em latim. Portanto, o latim está vivo.

O latim não se apropria de nenhum elemento novo e permanece fiel às suas bases lingüísticas. Obviamente, reconhecemos as necessidades que um mundo em mudança nos impõe. Às vezes, precisamos encontrar maneiras de expressar novas ideias (quase sempre substantivos) em latim. Este argumento, no entanto, é em geral valorizado demais, uma vez que há realmente muito poucas inovações modernas que legitimamente exigem um neologismo (cf. uma leitura decente de uma fonte latina existente de boa qualidade). Não surpreendentemente, quase todas essas inovações envolvem eletricidade. A questão, porém, é que quando nós (raramente) precisamos introduzir algum tipo de neologismo, precisamos ter certeza de que estamos fazendo isso de acordo com os métodos estabelecidos pelo latim para a formação de palavras. (Algo que muitos professores latinos atuais, simplesmente não são bem instruídos ou competentes o suficiente para realizar.)

No caso do Lexicon Recentis Latinitas não há nenhum neologismo patente.  A Fundação Latinitas apenas reúne e adapta diferentes palavras já existentes para acomodar um conceito novo.

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