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Caminhos para uma educação clássica – Parte II: o papel da memória

Caminhos para uma educação clássica – Parte II: o papel da memória

A memória humana é falha

Quando Frontão sugere ao aluno que ele busque nos autores antigos a resposta à questão, ele está, de certa forma, tocando nesse ponto, que é da relação do mundo clássico greco-romano com a memória. E parece que a educação clássica,a em suas diversas manifestações, surge da consciência  de que a memória humana é muito falha, e que o homem tem nessa terra uma grande missão: uma  luta contra o esquecimento

As musas, filhas da memória

A partir disso, pude entender melhor várias coisas que em princípio não faziam tanto sentido, mas que depois, a partir desse ponto de vista, fazem. Basta pensar que os poetas épicos que nós temos aqui, Homero e Virgílio especialmente, dirigem-se a um tipo de deusa, que se chamam musas. A mãe delas é Mnemósine, a deusa da memória. As musas, portanto, são filhas da memória.

Homero, na Ilíada, faz o catálogo das naves, listando as que vieram para Troia, fala quem são seus comandantes, quais são os povos, quantas naves vieram, etc. Faz um catálogo de fato. É difícil de lembrar todos os detalhes, a mente humana não dá conta disso. Ele pede, então, a ajuda das musas, porque elas lembram. Lembrar-se, narrar com perfeição algo que não pertence ao teu tempo exige uma intervenção de alguém que não tem memória falha, pois o homem tem. A mesma coisa Virgílio: “musa mihi causas memora”, Musa, memora-me as causas, porque ele, Virgílio, não lembra e não viu os fatos que ele narra. Ele precisa de uma intervenção – no caso das musas, filhas da memória – para poder passar aquelas informações para outras memórias, para poder fazer com que isso chegue até o Matheus aqui hoje. Eu preciso de uma intervenção divina, alguém que não esqueceu isso. Ao mesmo tempo, isso dá legitimidade ao discurso pois não é Virgílio que está lembrando, é a musa.

Respeito: olhar para trás

Então a memória se manifesta aí, e nós podemos entender uma série de coisas. Por exemplo, nós temos uma palavra naturalizada, que é respeito.  Essa palavra surge também de uma metáfora, cujo autor eu não me dei ao trabalho de procurar (não queria encontrar Cícero de novo). Mas em latim o verbo respicere é olhar para trás. E de fato Frontão diz que é preciso respeito. O jovem a quem ele aconselha não é o primeiro escritor, não nasceu hoje, o que ele quer fazer já foi feito antes dele. Frontão recomenda que ele olhe para trás, ou seja, que respeite. Isso também é uma metáfora, mas depois passa a significar levar em conta o que foi feito antes de ti.

Quando falamos de respeitar a família, significa ir em frente, mas olhar sempre para trás, pois temos uma mãe, um pai, uma história e pessoas que participam dessa história e merecem meu respeito. Isso também depende de memória, pois quando eu não tenho memória, eu não respeito. Se eu esqueço, eu não respeito. Se eu esqueço, eu sou o Adão da literatura. Eu escrevo hoje o primeiro livro. Eu escrevo o que eu quero, não tenho que levar ninguém em consideração, isso é falta de respeito.

Em Horácio, por exemplo, a questão do respeito é clara e ele explica outro conceito latino. Em um dos sermones, ele relata com grande detalhe  a sua educação , a relação com o seu pai e como este atuou na sua educação. Não que ele tenha feito um homeschooling, mas investiu e foi muito presente na educação de Horácio, que sempre foi muito grato por isso. 

Habes auctorem quo hoc facias

Em um dado momento, ele relata algum dos preceitos que o pai lhe transmitiu. Um deles era dito sempre que Horácio recebia uma ordem: “habes auctorem quo hoc facias”. O que Horácio está fazendo não são as primeiras ações, elas partem de uma outra pessoa; as consequências dessa ação também dizem respeito a outro. Elas não começam e terminam em Horácio, ele tem alguém a respeitar, ou seja, as ações de Horário tinham um autor. E este é um conceito que lidamos com os romanos, a auctoritas. O verbo latino é augere, mas também lá pelas tantas, metaforicamente, tem o sentido de criar. O autor é um criador. Mesmo hoje dizermos que o escritor de um livro é seu autor. Então quando o pai de Horácio manda fazer algo e diz “habes auctorem”, essa ação surge em outra pessoa e tu tens essa pessoa, a ordem vem de alguém. Também isso depende da memória, pois Horácio não vai lá fazer algo como se aquilo fosse uma vontade espontânea.

Mas a própria palavra memória tem alguns sentidos interessantes. Quando eu digo em latim “nostra memoria”, literalmente a nossa memória, eu estou referindo ao meu tempo de vida, à minha época, do tempo ao qual eu posso me lembrar diretamente, O tempo que eu vivi compõe a minha memória. E o interessante também é que quando eu vou relatar coisas que ultrapassam minha memória, ou nossa memória, eu vou fazer como os poetas e me dirigir às musas, pois a minha memória é falha, ela tem uma margem ultrapassada, ao qual eu preciso de ajuda, de uma intervenção.

Os clássicos são monumentos

Em latim também há uma coisa interessante, um dos jeitos, uma das expressões que significam história, no sentido de estudo e registro histórico, é “rerum memoria”. Serve para que não haja esquecimento, para que possamos respeitar. Mas vamos além, pois há outra palavra muito internalizada, que surge de uma metáfora, o monumento, palavra essa já muito internalizada. Surge do verbo monere, que significa advertir, avisar. Monumenta é a palavra dos romanos para sepulcro. Monumento é a estátua de um grande homem. Uma estátua de Júlio César. Eu olho aquela grandeza, e lembro que eu devo ficar no meu lugar. O monumento me aconselha, ajuda a memória. Não a toa em grego monumento se diz μνημειον, é uma lembrança, um lembrete. Hoje quando falamos monumento, a gente fala de uma grande obra que não necessariamente nos lembra de qualquer coisa.

Há também uma outra expressão para designar história em latim é “monumenta rerum gestarum” os monumentos das coisas feitas. Ou seja, lembretes do que se fez.

Mas o interessante é que Horácio, ao fechar o terceiro livro das Odes, ele olha para suas obras e diz: “exegi monumenta aere perennius”. Ergui um monumento mais perene que o bronze. Em seguida ele diz que nem a chuva vai consumir esse monumento, ele é mais alto do que as pirâmides do Egito. 

Poderíamos pensar nisso como um ato de soberba de Horácio. Mas ele está certo. Ainda no mesmo poema ele chama as musas e diz que elas devem receber a soberba dele, uma soberba que ele adquiriu com mérito. E ele está falando a verdade.

Horácio então percebe que a literatura pode ser muito mais eficiente que a pedra e o bronze. Monumenta em latim também quer dizer obras escritas, obras literárias, assim como momumenta rerum gestarum, De fato, é fácil derreter uma estátua de César. E os poemas de Horácio? Tinham tudo para se perder, foram escritos em papiro, material que era reaproveitado e se estragava facilmente. Tinha tudo para dar errado, e mesmo assim, muita gente fez de tudo para que aquilo não se perdesse. Porque olharam para aquilo e quiseram conservar. Pessoas que nos ajudaram a ter memória e consequentemente respeito pelo que já se fez.

Tudo isso nos explica muito a respeito da importância da memória para a educação clássica e, de certa forma, o quanto ela organiza a educação clássica. Isso fica evidente em algumas práticas como a própria imitatio, que consiste em tomar algum exemplo literário e tentar imitar. Esculturas são assim também, geralmente são cópias, não invenções. Eu ter que passar por um estágio onde vou ter que imitar o que se fez de melhor é prestar reverência ao passado, é respeitar o passado e perceber que é preciso fazer o que já foi feito, antes de inventar moda. Isso é muito bom para humildade.

Simul ante retroque prospiciens: olhar para trás e para frente

A constatação é a seguinte: quando começamos a estudar os clássicos, percebemos que nascemos muito tarde. Isso pode gerar uma angústia, afinal são 4 mil anos de literatura! Em um vida inteira não é possível, então o estudante fica desanimado.

Desdigo aquilo que diz Castro Alvez: “a impaciência desta sede de saber”. Ao descobrirmos as maravilhas da educação clássica, descobrimos que existe esse líquido maravilhoso para beber e quer-se beber tudo de uma vez. O aluno fica impaciente e por vezes angustiado. Alguns por fim acabam tendo outro problema: respeitam os autores com tanto fervor que só olham para trás, não se olha mais para frente. Essa é a crítica de Castro Alves, ninguém consegue caminhar para frente olhando pra trás.

Homero tem uma metáfora muito boa, ele para falar usa uma série de vezes, especialmente na Ilíada: ter velhos junto daqueles que estão tomando uma decisão, porque os velhos são mais prudentes, mais inteligentes, mais vividos, eles tem uma qualidade que é de poder olhar para frente e para trás: βλέπειν ἅμα πρόσω και οπίσω. Os velhos tem essa qualidade de conseguir pensar e olhar ao mesmo tempo para frente e pra trás, por isso é muito bom tê-los junto de nós quando tomamos uma decisão. Os jovens não conseguem, ou eles olham só pra frente ou pra trás.

Isso nos traz à memória a imagem do deus Ianus, deus romano de fato, sem importação grega. Esse deus tem duas faces, uma velha olhando pra trás e outra jovem olhando pra frente; que ao mesmo tempo tem a prudência da memória, de saber o que se fez, e quanto de bom e de mal já se fez, mas ao mesmo tempo tem a vitalidade, a juventude necessária para progredir.

Essa metáfora me parece muito bem, essa βλέπειν ἅμα πρόσω και οπίσω parece retratar muito bem a postura que me parece mais saudável diante da educação clássica. Nós sim adquirimos muito respeito pelo que se fez. Percebemos que nós não somos os primeiros a fazer a maioria das coisas que nós fizemos, mesmo os piores. Já houve gente pior, mais burra que nós. Isso é confortante às vezes. Mas nós geralmente não vamos ter a excelência como achamos que temos. 

Então pensar que uma das qualidade que nós vamos ter é: olhar ou pensar, βλέπειν ἅμα πρόσω και οπίσω, é bom respeitar, mas também não só ficar olhando pra trás, ou não vamos progredir. Precisamos ter habilidade de respeitar e prospectar.

Petrarca, o poeta italiano, ele tem uma expressão muito boa para definir essa postura. Ele se sentia colocado no meio de duas épocas, como alguém que estava no limiar de dois tempos. E isso gera uma certa angústia nele. Certa vez, falando dessa angústia, ele diz que o que ele faz é estar ali simul ante retroque prospiciens. Ao mesmo tempo prospectando para trás e para frente. E esta é a postura dele. Petrarca pode ser dado como um exemplo de pessoa que olhava para o passado, mas que procurava fazer isso olhando pra trás e buscando a memória necessária para agir agora e prospectar no futuro. É uma atitude muito saudável, dada a peculiaridade dos estudos clássicos, que é lidar com coisas muito velhas, com pessoas mortas e com o passado, sobretudo.

Conclusão

Emborra esse seja o tema, eu não falei sobre o que é educação clássica nesta seção. O que eu quis, na verdade, foi trazer o fundamento da educação clássica, essa relação diferenciada com a memória. Trouxe alguns exemplos, mas o hábito de memorizar, não ter muitos livros à disposição forçava os romanos e gregos usar a memória. Quando ouvia uma oração, era muito comum que ela fosse memorizada, para poder ser passada a limpo depois. Mas me parece essa a base, se levarmos em conta o valor da memória para a atividade clássica.

Pensar na memória quer também dizer que, se eu ajo hoje no mundo, eu respeito, é claro, mas eu também um dia serei memória. Eu também um dia poderei ser memória. E assim nós entendemos a vontade de fazer coisas grandiosas. A vontade de Cícero, que ele tem de salvar a república. Ele quer entrar pra história. O que ele faz? Ele escreve um poema sobre ele mesmo, é clara a intenção dele de se tornar memória. De não se tornar medíocre. Aquiles pôde ser um medíocre, mas ele quis ser memória. Assim nós podemos entender essa vontade de ser grande, de sobreviver à sua própria memória, seu tempo. Esse me parece ser o grande fundamento. Outras pessoas podem trazer outro, mas me parece que isso explica muita coisa do que compõem a antiguidade clássica e uma educação que esteja fundada nela.

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