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Declamando alguns versos das Bucólicas de Virgílio

Declamando alguns versos das Bucólicas de Virgílio

O dia 15 de outubro se aproxima, quando comemoramos o nascimento do poeta, mestre da arte de Dante: Publius Vergilius Maro, nascido em 70 a.C., Virgílio. Foi estudado por gerações de intelectuais, pouco de nossa literatura teríamos sem ele. Mesmo que se fale de uma época entre a queda do Império Romano e a Idade Média, em que ninguém teria feito literatura alguma ou cultivado algo das composições romanas, a verdade é que, a exemplo da Eneida, obra prima de Virgílio, algo se manteve como que numa tradição oral. E foi também desse modo que chegam até nós muitos anos de tradição, por onde se dá a influência de Virgílio.

Os versos que chegaram ao nosso tempo não nos abrem apenas a uma experiência estética, mas também à imersão numa nova vida, num novo oriente e poente de outro tempo, ou, quem sabe, do que não somos capazes de imaginar apenas com a própria realidade corriqueira. Visto ser uma boa poesia a ser declamada em latim, mesmo àqueles que ainda não conseguirem lê-la, apresentaremos aqui alguns versos das Bucólicas.

Quem já teve contato a Eneida, traduzida  ou não, deve lembrar-se de que se atribuem a Virgílio alguns versos que são normalmente apresentados juntos do épico, cujo texto relembra as canções anteriores, Bucólicas e Geórgicas, que lhe imprimiram a fama e, como diz, ao “compasso da doce avena” moduladas, dos campos e da vida rural dos pastores colhidos os assuntos:

Ille ego qui quondam gracili modulatus avena

carmen et egressus silvis, vicina coegi

ut quamvis avido parerent arva colono

gratum opus agricolis, at nunc horrentia Martis.

Seja investido algum tempo aqui, quando a vida de Virgílio é rapidamente apresentada:

“ego qui modulatus quondam carmen gracili avena et egressus silvis…” pois “carmen” é a própria canção, a qual modulada à avena, “gracili avena” (no ablativo, como adjunto adverbial) a flauta rústica dos pastores bucólicos, presente em narrativas de todos os tempos, em romances e poesias, até nos modernos de nossa língua portuguesa. Depois temos a referência às Geórgicas, que se mostram bem em “gratum opus agricolis”, “compensador trabalho no campo” e, por fim, sobre a própria Eneida “at nunc horrentia Martis”, algo como “mas agora (canto) a obra horrenda de Marte” (“ Mars” é o nominativo, “Martis” genitivo). Os feitos de Marte são o próprio contraste com essas duas poesias riquíssimas.

“Bucolica”, tem origem na criação do gado, ou cultivo, “custodibus boum”, no que temos “boum”, genitivo de “bos”, ou também, mais além, do grego “apò ton bucólon”, “apud rusticos boves”.

Na primeira écloga do poema, Virgílio trata da situação dos campesinos que foram expulsos de suas terras depois de uma distribuição de terras aos militares, vencedores na guerra civil com Otaviano Augusto, fundador do Império Romano. Ele mesmo perdeu sua terra, mas a recuperou.

Então, representando o que poderia ter sido comum a muitos colonos, temos dois personagens que travam um diálogo visto em certa amargura: um deles, Tityrus, que cuida do seu gado, deitado à sombra de um fagus, árvore típica da região temperada da Europa e o outro, Meliboeus, que deixa o campo com suas ovelhas muito contrariado. Ao fim da écloga, Tityrus convida Moelibeus para hospedar-se em sua casa, mas não aceita desejando muito sair daquelas terras.

Meliboeus:

Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi,

silvestrem tenui Musam meditaris avena;

nos patriae fines et dulcia linquimus arva:

nos patraiam fugimus; tu, Tytire, lentus in umbra

formosam resonare doces Amaryllida silvas.

Numa tradução apenas auxiliar, teríamos algo como:

“Tu, Tytiro, atiras-te sob esta enorme faia

Ficas compondo versos nesta avena;”

vale destacar que “meditaris silvestrem Musam”, pode ser dita originada da expressão “silvestria carmina meditari”, o mesmo que “componere”, no sentido de compor poesias, canções, sendo “meditaris” um verbo depoente, na segunda pessoa do singular e “Musam” relativo às musas, deusas que inspiram as canções.

A leitura dos dois versos deve respeitar as sílabas longas e breves. Tomemos os acentos apenas como representativos das tônicas, e os traços triplos, como a simbolização da sílaba longa, onde o leitor deve colocar mais tempo na pronúncia da sílaba.

Tí—ty-re,- tu— pá-tu-lae— ré-cu-bans— sub – tég—mi-ne- fá—gi,

sil—vés—trem— te-nu-í— Mú—sam — me-di-tá—ris-s a-vé—na;

Em todos estes versos, o que mais importa é a leitura do final, em que temos uma sílaba longa seguida de duas breves, depois outra longa e uma breve, são os dois pés finais do hexâmetro, dátilo e um troqueu. (hexametro porque tem seis pés).

Por fim, temos

nos patriae fines et dulcia linquimus arva:

nos patraiam fugimus; tu, Tytire, lentus in umbra

formosam resonare doces Amaryllida silvas.

“deixamos os extremos da pátria e o nosso doce cultivo:

corremos da pátria e tu, Tytiro, repousando na sombra

ensinas a selva a declamar para tua Amaryllis.”

Aqui frisemos que a ordem direta da frase final, o que faz muito mais sentido ao leitor comum, é “doces silvas resonare formosam Amaryllida”. “linquere” é o mesmo que deixar, afastar-se de, “resonare” foi traduzido por declamar, mas também guarda o sentido puro da cena: de uma mata silenciosa da qual só se ouve a música de algum poeta.

Passando rapidamente por esses versos, lembremos também que com estas dicas já é possível memorizar os versos, mesmo sem ainda conhecer o sentido completo de todo o latim, o que faz muito bem à memória e a todo o estudo dos poemas. Também é uma boa dica aos alunos que já compreendem grande parte desses versos, que aproveitem a riqueza dos vocábulos presentes nas Bucólicas, que nos trazem imagens muito bem escolhidas.

Por fim, ficamos com este trecho, apenas como uma rápida demonstração de que essas poesias são acessíveis e têm a sua beleza para ser apreciada e que trazem a carga de toda a cultura latina e sua musicalidade especial.

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