Nominativo:

Nominativo:

Se alguém deseja compreender o que significa o ‘nominativo’ na língua latina, deve primeiro desfazer algumas confusões. A primeira delas é compreender bem o que é um ‘caso’. Melhor ainda, não confundir ‘caso’ com ‘declinação’ ou, pior, ‘conjugação’.

Então, vamos por partes. Primeiro, tomemos consciência da primeira diferença que há entre as línguas modernas, como a portuguesa, e o latim: nas línguas modernas temos vocábulos que são nomes (substantivos ou adjetivos) que sempre se escrevem do mesmo modo. Nós dizemos: “o menino comeu a maçã.” E também posso dizer “a maçã é do menino”, ou também “ele deu a maçã ao menino”, ou ainda “Ele já chamou o menino três vezes”. Nada muda! Em todas estas frases usamos a palavra ‘menino’, e é escrita sempre igual. Mas devemos notar que o vocábulo apareceu nas frases em situações diferentes e tem funções diferentes em cada uma delas.

Façamos um primeiro exercício de comparação entre as orações que se seguem:
a) O menino comeu a maçã.

b) A maçã é do menino.

Comparemos os verbos: em a) o verbo é ‘comeu’ e em b) identificamos o verbo ‘é’. Agora imaginemos do melhor modo possível o que as orações descrevem: pois podemos imaginar de diversos modos um menino comendo uma maçã, ou imaginar a maçã que é do menino. Mas notem, quem está fazendo a ação descrita pelo verbo em a)? Que tipo de relação o verbo de b) tem com as outras palavras? É de extrema importância acostumar-se com perguntas como essas. Do mesmo modo, podemos nos perguntar sobre cada um dos elementos das orações.

Depois de observar bem a diferença entre os verbos “é” e “comeu”, podemos também observar a diferença entre o vocabulo ‘menino’ de a) e o de b). Em a) ‘menino’ é um elemento que descreve uma pessoa  (um menino) que faz uma ação relacionada à maçã, comendo-a. Na oração b), o menino não faz nada, na verdade o vocábulo está ali (em “do menino”) para expressar uma relação de posse. Aqui, é bom lembrar que algo faz com que a maçã, em determinado contexto, seja ‘do menino’, isto é, a história da maçã! Por exemplo, saberemos melhor que relação de posse é essa se contarmos antes que “um homem, que passava pela rua, deu uma maçã a um menino” e agora estivermos falando sobre a mesma maçã que é segurada pelo menino, então daí viria a frase: “a maçã é do menino”. O vocábulo ‘menino’ que vemos em ‘do menino’, na segunda oração, é diferente do que vemos na primeira.

[a) O menino comeu a maçã. b) A maçã é do menino.]

Como, na oração a), diremos que ‘menino’ descreve aquele personagem que faz a ação e, na segunda, o elemento que está ali numa relação de posse, poderemos denominar esses dois elementos conforme a sintaxe da língua portuguesa: o primeiro, por fazer a ação, será o sujeito da oração; por estar junto da preposição ‘de’ e descrever a relação de posse, diremos que ‘menino’ é parte de um adjunto adnominal “do menino”.

Para compreender o que é um caso, na língua latina, não precisamos, necessariamente, saber o nome dessas funções sintáticas em português, mas precisamos reconhecer a diferença das funções básicas de cada elemento das frases. Reconhecer estas diferenças  pede a capacidade de identificação das funções que cada um tem.

Agora vejamos o que é o caso. Na língua portuguesa, não temos exatamente a mesma variação de caso da língua latina, nem mesmo as mesmas categorias, mas podemos compreender bem do que se trata se detivermos a atenção àquelas funções que apontamos nos exemplos a) e b), que eram: a) ‘menino’ como sujeito e b) ‘do menino’ como relação de posse. Os casos, portanto, são um tipo de ‘flexão’. ‘Fletir’, o verbo que gera o nome ‘flexão’, significa quebra, ou dobra. Esta flexão – quebra, desdobramento – de caso é um dos modos com que os vocábulos latinos têm de alterar a sua escrita. Em português, por exemplo, temos a flexão de número, em que as palavras assumem a escrita do singular, como em “menino” ou plural, em “meninos”. Em latim, as palavras também têm flexão de número (singular e plural), gênero (masculino, feminino, neutro e comum) e caso (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo e ablativo).

Por isso, dizemos “o caso nominativo”, assim como podemos dizer apenas “nominativo”. Aprendamos um exemplo de flexão de caso: se eu quisesse traduzir – muita atenção agora – a palavra ‘menino’ que estava na oração a), direi “puer”. Ainda nos lembramos da função que possuía? Sujeito. Depois, se quisesse traduzir ‘do menino’ da oração b), como escreveríamos? “pueri”; em português “do menino”.

Então, agora respondamos mais uma vez à pergunta: “o que é o nominativo”? Diremos que é um dos casos da língua latina. O que é um caso? um tipo de flexão própria os nomes. Para que serve o caso? Para diferenciar a função dos nomes (substantivos e adjetivos) nas orações. Avançando mais a frente, para fazer uma comparação, respondamos à pergunta “os verbos possuem casos”? Não. Os advérbios possuem casos? Não. Nem “nunc” (advérbio ‘agora’), ou “est” (verbo ‘é’) possuem casos. Um verbo pode flexionar em pessoa (primeira, segunda e terceira), mas não em casos. Os casos são uma flexão típica dos nomes (substantivos e adjetivos).

“Puer” é nominativo, “mālum” (maçã) é nominativo. “Puerō” e “mālō”, claramente já percebemos que não estão no nominativo, mas notamos que são os mesmos nomes. O que variou na escrita? A terminação. A flexão de caso, portanto, se dará pela mudança das terminações: como de ‘puer’, para ‘puer (-ō)’; ‘māl (-um)’, para ‘māl (-ō)’.

Qual a função do caso nominativo? Para a maior parte dos casos, é de sujeito da oração, ou sempre tem esta função relacionada ao sujeito. Ou seja, sempre que variarmos a função de alguma palavra, na língua latina, deveremos variar o caso, o caso é a variação, a flexão, que representa uma mudança de função. Podemos dizer, de outra forma, que a função do caso nominativo é diferenciar, marcar ou sinalizar aquele elemento da oração que representa a pessoa ou coisa que faz a ação do verbo.

Certo, mas por que se chama “nominativus” (nominativo)? Assim se chama, porque é o primeiro caso, o caso que denomina os nomes. Por exemplo, quando quero dizer um nome de alguém em latim, direi “Eduardus”, “Marcus”, “Iulius”. Quando quero dizer o que é algum objeto, depois da pergunta: “o que é isto”? Responderei com nominativo: “Mālum est”! “Puer est”! Se quero relacionar um nome a outro, (um substantivo a um adjetivo, alguém a uma característica própria) escreverei “Marcus est puer”, “mālum est magnum”, em que tanto ‘Marcus’ quanto ‘puer’ estão no nominativo ou tanto ‘mālum’ quanto ‘magnum’, também.

Desse modo, dizemos que o caso nominativo é um caso entre outros seis e se dá nos nomes. É chamado assim por ser a flexão dos vocábulos que dá nome às coisas; do mesmo modo, representa a função do sujeito da frase e seus atributos. Por fim, notemos algo muito importante: como é possível aprender latim ou ler com facilidade se precisamos de tudo isso para compreender o que é um caso? Embora não seja tão simples de responder, podemos dizer que a língua latina precisa ser praticada, precisa ser lida, através de uma vastidão de lições e exemplos. Por isso, que esta explicação também é um convite à prática da língua e à leitura de textos latinos, mesmo que simples e didáticos. Um método como o Lingua Latina Per Se Illustrata, por exemplo, pode nos oferecer isto: a gama de exemplos necessários a um aprendizado de degrau em degrau, pelos quais a compreensão se dá do mais simples ao mais complexo durante todo o percurso. Aliando os nossos esforços à leitura, à meditação e ao exercício, os procedimentos que nos parecem trabalhosos, serão parte do hábito, e, até mesmo, parecerão algo simples.