O que há de tão nobre em Homero?

O que há de tão nobre em Homero?

   Homero tem sido apresentado a crianças e adolescentes como um registro qualquer da literatura antiga e nada mais. Não só ele parece esquecido, mas o próprio gênero épico da antiguidade. Não estou dizendo que Homero sempre foi lido desde a antiguidade sem interrupção, pois já se sabe que os versos originais da Ilíada e da Odisséia perderam-se e foram redescobertos bem mais tarde na educação europeia. Estas obras não estavam entre as leituras escolares que formaram os intelectuais da Idade Média, mas apenas a Eneida, de Virgílio, que era amplamente estudada. Vale lembrar que Virgílio foi mestre dos seus sucessores na poesia italiana medieval ao ponto de tornar-se a alma destinada a guiar e zelar por Dante em sua descida para os infernos na Divina Comédia. Mas a Eneida, do próprio mestre, nem sequer existiria não fosse por Homero. A verdade é que Homero sempre foi conhecido e estimado, mas, ainda que a ele se façam tantas homenagens e referências, nada nos isenta de compreender por que se dão a ele tantos louros e elogios. Contudo, a verdade é que os nossos últimos livros de história e literatura transformaram os épicos em peças de museu no máximo “interessantes” da cultura greco-latina; alguns mais sérios deram-lhes a posição de “pioneiros” e formadores da literatura ocidental. Entretanto, essas opiniões parecem apenas fazer parte de um momento obscuro da educação; pois queiramos que o tal esquecimento passe como passam as modas, visto que o seu devido prestígio parece estar retornando entre professores e estudantes que retomam essas leituras em meios como a internet, ou em novas iniciativas educacionais que, de certo modo, o recolocaram em circulação. 

   Certo, dito tudo isso, todos já entenderam que Homero não é brincadeira, mas e agora? Por que, então, alguém deve ler ou conhecer as obras homéricas? Por acaso possuem uma beleza insuperável na composição? Por tratar de gestas gregas famosas, das quais a literatura posterior faz referência até hoje? Talvez seja por algo desse tipo ou, para a surpresa de muitos, talvez seja por um detalhe esquecido e enterrado!

   Vejamos o que é. Mas primeiro vai um comentário à nossa péssima postura diante das obras. Ao que me parece, até mesmo bons leitores podem acabar com a impressão de que a Ilíada, por exemplo, é como uma novela televisiva a respeito de uma guerra cheia de vingancinhas causadas pela inveja, cenas de ação de batalhas quaisquer, idas e vindas sem resolução e bobos apelos emocionais. Que possa parecer cansativo, pode até ser, pois o tema da guerra já está bastante saturado pela televisão e pelo cinema. Além disso, a Ilíada pode parecer um tédio sem a Ira de Aquiles, a vingança pela morte de Pátroclo e a estratégia do Cavalo de madeira, que – diga-se de passagem – não consta nesta obra. Mas estas partes e o enredo da narrativa não são tudo. Enquanto tendemos a buscar uma leitura confortável e uma “trama envolvente”, esquecemos que os meninos da antiguidade grega deixavam que Homero lhes falasse sobre o que tinham em seus corações e sobre quem poderiam se tornar. Por isso, nada mais sensato do que imitá-los ao máximo nisso e deixar-se impregnar pelos destinos humanos aí revelados, cujo centro era a glória e, consequentemente, a nobreza.

   O historiador francês Henri Marrou é quem nos ajuda a responder qual seja esta glória, que foi tão perseguida na educação guerreira dos gregos. Em comparação com a educação dos escribas orientais – que buscava muito mais a técnica escrita e um tipo de sabedoria moral bastante particular – essa ética buscava formar um homem nobre e honrado por seus feitos. Marrou deixa claro que, no centro dessa educação, estava Homero. Para entender como isso acontece, é preciso conhecer a obra, bem como compreender os elementos que a privilegiaram na imaginação dos gregos. 

   O fato é que Homero conseguiu construir um ideal de nobreza por meio de seus heróis; tanto que se tornaram exemplos vivos e profundos ao ponto de instituírem costumes, gostos e comportamentos para as gerações seguintes. Isso não teria sido possível sem uma genialidade capaz de imprimir enorme seriedade e coerência à narrativa. Começa que os heróis da Ilíada estavam sempre em guerra, vivendo numa vigilância sem pausa, o que fica bem claro: pois, a qualquer momento, algum ataque troiano poderia ser fatal. A missão de guerra era a mais séria possível: a busca da liberdade e o resgate da própria honra, pois a esposa do rei de Esparta e mais bela mulher dentre todas as gregas, Helena, havia sido raptada; esta foi a afronta dos Troianos, foi o desrespeito e ultraje de Páris ao cometer uma profanação de uma lei sagrada, um verdadeiro golpe no coração dos Aqueus que constituíam aqueles povos do Peloponeso e da Ática. Estes homens, então, e seus adversários enfrentavam a ameaça da morte e lutavam por algo sagrado. 

   Portanto, não vemos personagens em momentos de ócio ou despreocupados, pois nada ali é ação solta ao vento ou tranquila. A turbulência permeia cada passo dos soldados, então tudo que é feito toca o mais profundo da vida humana, desde o cuidado com a sobrevivência até a espera do glorioso sucesso e a volta para casa. Portanto, cada novo sol pode ser o último dia de generais e reis e, consequentemente, das famílias suas e de todos aqueles sob a sua tutela. Contudo, mesmo numa situação como essa, não veremos nenhum soldado em abandono de seus papéis e subordinações ou da nobreza diante de suas autoridades; pois, mesmo durante as batalhas, seguem-se os  rituais, os cortejos, os sacrifícios e o cuidado com cada palavra dita aos companheiros e superiores.

   Por esse lado, notamos profunda coerência de tudo que há nas obras: as narrativas que aparecem não foram ligadas apenas como costuras de retalhos. Logo, cabe a nós observar cada fábula inserida pelo autor, bem como a ação dos deuses e todo o desencadear de acontecimentos. Se bem repararmos, são claras as disputas por essa glória tanto entre os guerreiros gregos quanto no outro lado da disputa. Para dar um exemplo, Diomedes, Ajaz, Odisseu e Aquiles são comparados entre si o tempo todo e, também, com o próprio Heitor, maior dos Troianos. Há categorias bem definidas nas quais os guerreiros se destacam: a força, a coragem, a eloquência ou outros valores individuais. Há também aqueles que se consagram mestres imbatíveis, como Nestor, o orador máximo, que arranca lágrimas do próprio general Agamenon, amolecendo seu coração de pedra. A conquista de qualquer glória é cara, assim como o ouro de um pódio olímpico. A analogia com as olimpíadas não é feita aqui por acaso, pois é forte a ligação entre a guerras e os jogos, que sempre estiveram presentes nas gestas gregas e tinham um papel muito mais sério do que uma mera competição pelo prestígio social ou por riquezas materiais, sabendo-se que os vencedores poderiam se confundir com os deuses. Um bom exemplo disso está numa expedição anterior à Ilíada, que foi a dos Argonautas em busca do velo de ouro, na qual o navio Argos não pôde partir sem antes haver uma competição que selecionasse os tripulantes; entre os quais estavam homens como Peleu, o pai de Aquiles, Laertes, pai de Odisseu, os grandes heróis Hércules e Teseu e o rapsodo mais famoso entre os gregos, Orfeu: geração que foi sucedida pelos heróis dos épicos homéricos.

   Parece bem erguida toda essa tradição composta de gestas e acontecimentos que se confundiam e misturavam aos fatos históricos dos gregos. Tradição que ora cai nas graças e na boca desta civilização, ora torna-se uma obrigação e uma lei para a pólis grega. No melhor ou no pior dos tempos da cultura grega, muitas crianças e adolescentes teriam ouvido essas narrativas e descoberto que descendiam dos célebres guerreiros e até de deuses. Imaginemos que, se já nos é interessante ouvir a história de nossos próprios avós, quanto mais o era aos jovens gregos que ouvissem a dos seus antepassados de um mundo tão fantástico: algo que lhes dirigia um dever de cuidado da honra, da história e dos feitos familiares. Desse modo, as histórias foram passadas oralmente de geração em geração. Porém, não pensemos que houvesse apenas um meio de narrar as histórias, pois antes que ouvissem tudo na forma versificada em longas exposições que já consolidadas, conheciam-nas pela prosa natural dos mais velhos. Provavelmente já sabiam que Odisseu enfrentou Sila e Caríbdis, que Aquiles repeliu um ataque troiano com um rugido monstruoso ou até que Diomedes projetou uma lança de ponta aguda numa deusa, Afrodite, enquanto ela acudia o próprio filho troiano, Enéas, que foi seu adversário durante a guerra. Portanto, nunca faltou-lhes inspiração vinda das obras homéricas, nunca faltaram exemplos pelos quais se orientarem. 

   É exatamente nesses exemplos e no modo como ocorrem as histórias que encontramos a beleza e a genialidade homérica, da qual podemos nutrir a nossa imaginação. Por isso, falamos muito em “mundo de Homero” e numa “educação antiga”, que, na verdade, é apenas a continuidade e o exercício desta forma grega, que se replicou através do tempo na vida do Ocidente. Assim, portanto, estes épicos possuem as faces de um imenso poliedro que compõe a verdadeira aparência e o valor da obra de Homero para toda uma civilização. Dizer que o poeta cego teve mais de mil vidas não é exagero, se lembrarmos do eco distante que cada uma de suas criações projetou no tempo. Foi assim que seus heróis tornaram-se fonte ilimitada de histórias e seus modelos foram tão replicados. Por fim, se alguém quer compreender isso tudo verdadeiramente, deve primeiro dar a esta imensa obra a atenção e o cuidado que merece.

Autoria: Eduardo Rocha