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O que Virgílio escreveu? (parte 1)

O maior poeta da língua latina nasceu em Andes, em 15 de Outubro, uma região rural próxima a Mântua. De família humilde, seu pai era um oleiro, fazia vasilhas de barro. Segundo Hélio Donato, contavam que ele teria sido patrocinado por um senhor chamado Mago, do qual teria se tornado genro. Com esse investimento, teria feito uma certa fortuna, por seu trabalho, comprando terrenos florestais e cultivando abelhas.

O poeta, então, nasceu com o nome Pompeio Magno M. Licinio Crasso. Isso mesmo, nada de Virgílio, pois este nome teria sido um apelido, por sua pureza e timidez, pois era chamado de “Parthenias” em Nápoles, que significa “O Virgem”, e, portanto, o nome “Virgílio” viria realmente de “Virgo”, ‘virgem’ em português.

Estudou gramática em Cremona e outras cidades. Segundo Donato estudou medicina, matemática e dedicou-se também ao estudo das leis para advogar, mas não defendeu não mais do que uma causa, pois era muito lento no falar e, desse modo, parecia indouto.

Ainda que tenhamos até agora a descrição de um possível grande talento literário, nada poderia nesses elementos biográficos poderia nos confirmar a arte e o engenho do jovem ‘Parthenias’. Mas a história foi aos poucos ganhando peso, quando Virgílio, mais tarde, com 25 anos, já emendava suas Bocólicas e Geórgicas, que foram belíssimas poesias pastoris, encomendadas por seu mecenas e editor de seus textos, Asínio Pólio.

Sua maior obra, no entanto, que lhe deu fama e o lugar como maior poeta romano, foi a Eneida, encomendada pelo próprio imperador Augusto. Virgílio pediu em testamento que a Eneida fosse esquecida, queimada, pois não havia sido emendada nem mesmo editada ainda quando o poeta veio a falecer. Porém, sabendo do valor dos versos, Otaviano Augusto não permitiu que isso acontecesse e salvou esses escritos que chegam a nós, os quais lemos até hoje, como obra prima.

Deixou um breve epitáfio em sua lápide quando faleceu, aos 51 anos:

Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc

Parthenope: cecini pascua, rura, duces.

Cecini: Cantei. O verso quer dizer: cantei a vida dos pastores, do campo e dos generais, da guerra, referindo-se, às bucólicas, geórgicas e à Eneida. Vejamos o sumário dessas três obras:

Bucólicas: é um grupo de poesias, que são chamadas éclogas, nas quais, imitando Teócrito, um poeta grego, observou a vida, os costumes, as virtudes e os vícios dos pastores.

Primeira Écloga: Nos campos mantuanos, apresenta Moelibeus, que havia sido expulso de seu próprio campo e agora levava dali suas cabras, e Tityrus, que canta docemente no campo a usufruir da sorte e da dádiva paterna. Tityrus conta a Melibeus seus casos de sorte. Já este outro, que encontrava-se muito descontente, lamenta-se pela angústia de seu destino. Quando a noite se vai, Tityrus convida Moelibeus a permanecer consigo para descansar.

Segunda Écloga: Corydon, que ardia de amor, foi atraído pelo menino Alexis. Profere suas palavras vazias para os montes e florestas. Recobrando a consciência, reconhece a própria demência e decide voltar para a casa e cuidar de seus compromissos familiares.

Terceira écloga: Dois pastores Damoetas e Menalcas primeiro discutem entre si, depois desafiam-se em uma disputa musical, sob o julgamento de Palaemone. Como um declama à altura do outro, nenhum sai vencedor.

Quarta écloga: É celebrado o nascimento de um menino, sob o qual reinará a felicidade de um século de ouro na terra, felicidade que foi cantada pela sibila Cumana.

É algo muito discutido sobre quem seria esse menino: muitos afirmam ser o filho de Pólio, mas não faltam afirmações de que Virgílio teria cantado o advento do Salvador do Mundo, Jesus Cristo, cuja notícia correu por todo o lugar e chegou depois ao império romano.

Quinta écloga: O pastor Mopsus canta o epitáfio e Menalcas canta a apoteose de Daphnis, que já era consumido pelas chamas do funeral.

Sexta écloga: Os pastores Chromis e Mnasylus amarram e prendem o pastor Silenus, que dormia em uma caverna, pois o homem havia perdido a esperança da poesia. Silenus, coagido por eles, canta a origem do mundo, o dilúvio, na versão grega do mito, os séculos áureos e as antigas fábulas.

Sétima écloga: O pastor Moelibeus conta sobre uma disputa entre dois pastores, Corydon e Thyrsis, que a assistiu por acaso. Acabou com a vitória de Corydon. Nesta écloga o canto suave dos pastores une-se com a amenidade rural de onde se encontravam, sob a sombra de um frondoso carvalho, que era agitado pelos ventos, a ouvirem a mistura sonora entre sussurro de abelhas e o movimento do rio.

Oitava Écloga: Possui duas partes: na primeira, o poeta Damon, caído de amor pela menina Nisa, a qual lhe foi trazida por Mopso, irrompe em muitas querelas. Na outra, porém, Alphesibeus, que conta uma história sobre uma mulher que havia sido envenenada e agora tenta chamar de volta a alma do marido para o seu amor!

Nona Écloga: O pastor Lycias encontra-se com o pastor Moeris na estrada que chegava até Mântua, para que levasse alguns cordeiros ao seu senhor. Por causa de Lycias, que perguntou o que lhe trouxera àquele caminho, Moeris, narra que Menalca, seu antigo senhor, foi expulso das suas terras, não tendo alcançado a sorte de nelas permanecer.Tendo ouvido aquela situação, lamenta o revés, e depois seguem cantando até a cidade para afastar a melancolia.

Décima Écloga: Um poeta consola outro poeta, amigo seu, chamado Gallus, que sofria de amor, pois Lycor, uma jovem que o rejeitara, havia fugido com um soldado pelos Alpes e ao frio do Reno. Toda a natureza, as árvores, os montes, o gado, os pastores, o próprio Apolo, Silvano e Pan, acentuam as dores de Gallus, que extrai do espírito um canto àquele sofrimento inelutável! Versos que podem ser ditos um exemplo insigne de canção pastoril!

Continua…